quinta-feira, 29 de novembro de 2012

E quando cair a ficha?

Eu sempre começo as postagens escrevendo algo que penso ser uma introdução e quase sempre uso a palavra "engraçado", pois acho que muitas das minhas reflexões são realmente engraçadas (pelo menos para mim), entretanto, não posso começar dizendo que é "engraçado" pois desta vez não é.
Nesta quinta-feira (29/11/2012), às 0:55 faleceu o jornalista Joelmir Beting - não, não serei hipócrita de dizer que sempre fui fã do trabalho dele, que sempre o admirei ou qualquer coisa do gênero, até porque admito (talvez por um pouco de ignorância) pouco sei calcular a real dimensão do trabalho de Joelmir Beting para o jornalismo brasileiro - mas uma coisa me chamou a atenção, uma carta lida pelo filho de Joelmir, o também jornalista Mauro Beting.

Dada a emoção durante a leitura, pela perda do pai, Mauro Beting me despertou alguns sentimentos que há muito trago guardados.

Uma frase em especial me chamou a atenção: "[...]nos próximos dias, quando "cair a ficha"[...]".

É incrível que quando a vida nos prega esse tipo de peça, realmente, demora a "cair a ficha", parece que estamos dentro de um sonho - talvez mais para um pesadelo -, apesar de aproveitar muito O Palco para contar a minha vida, não o farei desta vez pois trata-se ainda de uma ferida aberta - pra não dizer escancarada -.

Mas só quem perde alguém tão próximo (um pai, uma mãe, um irmão) sabe o quão difícil é acreditar no que está acontecendo, dá uma vontade de tentar acordar, abrir os olhos pra ver que "nossos amores" ainda estão conosco, ao nosso lado.

Acho que não existem palavras de consolo que consigam aliviar esse tipo de dor, parece que tudo aquilo que se diz são apenas palavras vazias e formais, que se usa apenas por educação, sendo que muitas vezes apenas o silêncio basta.

Não tem nada mais terrível do que estar destruído por dentro e ouvir palavras como: "agora não tais sentindo nada, mas depois com o tempo vai começar a sentir falta...", por isso digo, o silêncio às vezes basta.

Não tenho a mínima pretenção de imaginar que esse texto possa "chegar perto" do Mauro Beting, entretanto, ainda assim, espero que ele e a família tenham muita força para "superar" essa perda e agradecê-lo por mesmo na dor ser capaz de escrever tão belas palavras capazes de inspirar até quem não faz parte de seu círculo pessoal.

Vá em paz Joelmir Beting!

Quem sabe um dia isso pra mim passe, a ferida se feche e permaneça apenas como uma cicatriz, uma lembrança de tempos ruins que se vão com o tempo...

quarta-feira, 21 de novembro de 2012

My roots

Aproveitando o gancho da última postagem, que comentava um pouco dessa questão de preconceito e tudo o mais, acho interessante, pois desde sempre ouvi falar que música de negro era pagode, rap e funk e me admirei com isso, pois nunca foram esses os meus estilos musicais favoritos, por conta disso sempre ouvi comentários de que eu estava "negando a minha raça".

Claro, isso é um assunto muito subjetivo, mas que ainda assim vale um comentário.

Acho interessante esse conceito de "negar a raça" afinal, em momento nenhum eu quis alisar meu cabelo ou sequer 'parecer branco' como tanta gente faz, tenho orgulho 'do meu povo' de tantas lutas e de tanto sofrimento, mas acho muito vago rotular um povo por seus costumes.

Eu não acho que seja necessário eu viver falando gírias que para mim pouco fazem sentido, usar roupas que não condizem com o que penso ou sequer ouvir músicas que acho bastante degradantes (em vários sentidos), não vou entrar no mérito da questão e começar a tentar discutir a poesia escondida em uma letra de funk, só acho que não é uma música que vai definir o quanto eu gosto ou não das minhas raízes.

Acho muito mais 'ofensivo' tantas mulheres negras que eu vejo por aí, com cabelos maravilhosos e que fazem de tudo para alisá-los para 'parecer mais brancas' ou que saem na rua 'parecendo o Gasparzinho' só para não dizer que são negras, isso sim é que é negar a raça, isso é que é jogar no lixo tantos anos de lutas e histórias.

Sou negro sim, mas um negro que adora música italiana, rock e que ainda assim consegue olhar para trás e se orgulhar de todos os séculos de batalhas que 'o meu povo' traçou.

sexta-feira, 16 de novembro de 2012

Cores, matizes e contrastes

Eu particulamente não consigo acreditar no termo "politicamente correto", para mim soa como algo compulsório, como uma obrigação - um tanto desnecessária - a se seguir.
Quer dizer, quem me conhece - ou pára para olhar a minha foto - sabe que sou negro e que não tenho o menor problema com isso, aliás, já tive muitos, principalmente por culpa da infeliz coincidência de estudar em escolas nas quais quase sempre haviam duas pessoas negras na minha sala, (eu e mais alguém) - não que eu realmente acreditasse -  mas às vezes, e só às vezes, parecia que eu não fazia parte 'daquele grupo', era um elemento distoante, por mais que os colegas não tivessem nenhum tipo de ação para reforçar esse pensamento, era algo que eu trazia comigo.
Felizmente, hoje, entendi que existe um negócio chamado "oportunidade", sei que tive muitas facilidades que alguns outros negros não tiveram - facilidades essas que às vezes me prejudicam um tanto hoje em dia, mas isso não vem muito ao caso - o fato, é que eu sempre pude estudar em boas escolas, sempre fui incentivado a ir cada vez mais longe e desde sempre recebi em casa uma educação que posso chamar de exemplar.

Mas voltando à razão da postagem, acho de uma infelicidade sem tamanho todas estas regras de conduta impostas pela sociedade no trato com as pessoas, quer dizer, é claro que não gosto de ser chamado de "macaco" e outras coisas que se ouve por aí dos negros, entretanto, eu também detesto quando alguém olha pra mim e diz: "moreninho, vem aqui um instante...", afinal, eu não sou moreno, sou negro - artisticamente eu poderia dizer que existe uma gama enorme de cores entre o "moreninho" e o "negro".

Me assustei, inclusive, quando vi que havia um projeto para adequar as obras de Monteiro Lobato por possuir termos racistas, francamente, sejamos realistas, as obras dele datam da década de 20 até a de 40 do século XX, ou seja, o conceito de escravidão ainda estava entranhado na sociedade da época, pois a abolição era algo recente.
Sou contra, inclusive, às chamadas "cotas raciais" que fazem com que os estudantes negros, índios e outros sejam mais valorizados pela cor da pele do que pelo conhecimento que obtiveram ao longo da vida.

Acho muito digno que queiram diminuir alguns preconceitos ainda existentes, mas acho que forçar a população a acatar tais regras, não seja um bom caminho.

As pessoas acabam ficando com tanto medo na hora de se expressar que passam por situações absurdas como no dia em que fui preencher uma ficha de inscrição e a atendente - para ser respeitosa - olhou para mim e me perguntou qual era a minha raça, como se não fosse evidente, ainda me dei ao trabalho de responder: "não estou com muita cara de pardo hoje...", lógico, acabei fazendo uma brincadeira maldosa, mas é pelo fato de não conseguir entender o porquê disso, afinal, será que no Brasil é tão ruim ser negro?
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